AgirAzul Memória
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AgirAzul 13

Um Testemunho do Primeiro Protesto Ecológico

  • Sérgio Becker

Terça-feira, 25 de fevereiro de 1975. O presidente da República é o general Ernesto Geisel (recentemente falecido), penúltimo do ciclo militar, que fecha o Congresso Nacional, mas acena com a redemocratização, através de um processo “lento, gradual e seguro”. Apesar de mantido o aparato repressivo, o regime militar completa o seu undécimo aniversário com visíveis sinais de esgotamento.

Entre meia hora e uma da tarde subo de ônibus a João Pessoa, em direção ao trabalho, na sucursal do jornal O Estado de São Paulo, o Estadão, na Andrade Neves, ao lado das Lojas Americanas. Mas tenho a atenção despertada por um significativo grupo de pessoas defronte a Faculdade de Direito e decido voltar para certificar-me do que se trata. Encontro seis “Tipas” derrubadas por operários contratados pela Prefeitura e, na sétima, um estudante em seu topo, prometendo defendê-la com “a própria vida, se preciso”.

Ocupa a Prefeitura de Porto Alegre o senhor Telmo Thompson Flores, numa época em que os prefeitos de capitais e “áreas de segurança” são indicados pelos militares e “eleitos” pela Assembléia Legislativa, onde, se necessário, cassações dos direitos políticos transformam a situação de minoria em maioria. Thompson Flores constrói alguns viadutos, entre os quais o Imperatriz Leopoldina, ali na João Pessoa.

O estudante em cima da Tipa é Carlos Alberto Dayrell, mineiro, aluno de Engenharia Eletrotécnica, que pouco antes do meio-dia desce a avenida para fazer sua rematrícula na Faculdade. Vê um prédio sendo demolido cercado de pessoas, enquanto que as árvores são derrubadas sem que ninguém se importe com elas. Por isso decide defendê-las. Pelas duas da tarde vou até um orelhão para ligar para a sucursal e pedir a vinda do fotógrafo Antônio Vargas. É quando meu chefe revela que eu estava sendo esperado justamente para ir até o protesto ecológico. Nas cinco horas  seguintes  acontece:

— Dois outros estudantes, Teresa Jardim e Marcos Sarassol aderem à manifestação e também sobem na árvore. O protesto atrai 500 pessoas, entre as quais quase 50 jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas. Chega o ecologista Augusto Cunha Carneiro, secretário da AGAPAN, acompanhado de Lair Ferreira, para dar apoio integral.

— O público também adere: alcança refrigerantes e sanduíches e expõe cartazes: “Mais verde, menos concreto”, “Basta de destruição”, “Natureza sim, destruição não”. Às 14 horas chegam viaturas com dezenas de brigadianos. Empunhando megafone, o capitão PM Joaquim Luís dos Santos Monks pede para o público se afastar e promete que “ao menos hoje” a árvore não será derrubada. É vaiado.

— Às 15 horas, o diretor da Faculdade de Engenharia da UFRGS, Adamastor Uriartti pede para os estudantes descerem para conversar. Tereza convida-o a subir. Ele sobe, sob aplausos. Chega o presidente da AGAPAN, José Lutzenberger. A decisão, então, é fazer uma reunião, tirar um documento e levá-lo ao prefeito. Dayrell desce para a reunião e quando Lutzenberger sai da sala de reuniões “do Direito” (da Faculdade de Direito da UFRGS, em frente à árvore), um policial (da Federal ou da DOPS - Departamento de Ordem Política Social) tenta pegar o original da nota. Advirto-o que poderá ler a íntegra no dia seguinte, em todos os jornais e ele me responde: “é que eu preciso ainda para hoje, pro relatório...”. A esta altura os policiais já tinham feito dezenas de fotos, inclusive dos repórteres.

— O prefeito não recebe Dayrell e ecologistas e cancela a habitual coletiva das terças-feiras.

O secretário de Obras, arquiteto Plínio Oliveira Almeida recebe, promete suspender a derrubada das árvores e garante a integridade física de todos. Mas, recua rapidamente deste compromisso. Enquanto Dayrell e comissão vão até a Prefeitura, pelas cinco da tarde, os brigadianos decidem terminar com o ato de protesto. Descem os dois estudantes e os detém. Investem contra repórteres e população e prendem dois profissionais. Levam os quatro para o DOPS.

No dia seguinte, o ato de Dayrell, seus colegas e ecologistas é capa do Estadão e páginas inteiras dos jornais locais mais ousados como a extinta Folha da Manhã. Os operários voltam ao serviço, mas limitam-se a cortar e remover as árvores derrubadas. Não ousam tocar na sétima e em uma dezena de outras, que estão lá até hoje, junto aos prédios das Faculdades de Direito e da Economia.

E a foto de Antônio Vargas, com Dayrell, Teresa, Marcos e Adamastor trepados na Tipuana Tipa é repetida no segundo dia pelo Estadão, encimando a mensagem: “Estudantes gaúchos. A pancada que vocês levaram por defenderem uma árvore, doeu também na gente. Aceitem a solidariedade do Conselho Nacional de Propaganda e deste jornal”.

O autor é jornalista no Rio Grande do Sul. Fone/Fax: (0xx51) 3227-1151.